Histórias femininas no Liceu: Clube das Vitórias Régias
Em um tempo em que as mulheres ainda enfrentavam barreiras para ingressar em grandes agremiações culturais, como a Academia Brasileira de Letras, um grupo de intelectuais e artistas decidiu organizar-se de forma independente, criando um espaço próprio de encontro e promoção das artes e da literatura.
Foi nesse cenário que surgiu o Clube das Vitórias Régias, associação fundada em 9 de julho de 1936 sob a liderança da escritora Iveta Ribeiro.
O movimento associativo feminino nos anos 1930
Em meados da década de 1930, a presença feminina no espaço público passava por transformações significativas, no Brasil e no exterior. Desde o início do século XX, movimentos organizados vinham reivindicando maior inserção na vida política, intelectual e profissional, questionando limites que por muito tempo haviam restringido sua participação à esfera doméstica.
Na Europa e nos Estados Unidos, o movimento sufragista já havia conquistado vitórias importantes desde o final do século XIX. Países como Nova Zelândia (1893), Reino Unido (1918, ampliado em 1928) e Estados Unidos (1920) reconheceram o direito de voto feminino, impulsionando debates sobre cidadania, educação e participação pública.
No Brasil, essas discussões repercutiram na década de 1930. O Código Eleitoral de 1932, promulgado durante o governo de Getúlio Vargas, instituiu o sufrágio feminino — ainda que com restrições iniciais, como a exigência de alfabetização. Tratava-se, ainda assim, de um avanço decisivo.
Nesse contexto, ganharam força associações femininas voltadas à educação, à beneficência e às artes, que articulavam sociabilidade e afirmação intelectual — em sintonia com movimentos semelhantes no exterior.
Foi nesse ambiente de renovação cultural que surgiu o Clube das Vitórias Régias. Inspirado em círculos culturais europeus — e mais especificamente no Le Club des Belles Perdrix, de Paris —, o grupo, em apenas dois anos de existência, já reunia mais de setenta integrantes e promovia atividades de caráter artístico e literário, além de iniciativas beneficentes.

Clube das Vitórias Régias em visita ao Liceu, às vésperas do Salão de 1938. Jornal A Noite, 27 ago. 1938 (Biblioteca Nacional)

Jornal A Noite, 29 set. 1938 (Biblioteca Nacional)
O Liceu Literário Português e o Primeiro Salão de Artes Plásticas e Aplicadas do Clube das Vitórias Régias
Entre os dias 22 e 29 de setembro de 1938, o Clube das Vitórias Régias realiza o seu primeiro grande evento cultural. O Primeiro Salão de Artes Plásticas e Aplicadas da organização teve lugar no Salão Nobre do Liceu Literário Português, reunindo artistas em diversas categorias: pintura, escultura, gravura, ilustração, cerâmica, encadernação e artes decorativas.
Entre as participantes figuravam nomes com relevância no meio artístico e outros menos conhecidos.
O folheto do Salão — compartilhado conosco pela Prof.ª Angela Cunha da Motta Telles — é valoroso no que revela do prestígio social do grupo e das redes de sociabilidade feminina então existentes no Rio de Janeiro dos anos 1930. Angela Telles, vale destacar, é Diretora Vice-Presidente do Real Gabinete e filha de Maria Angela Amaral do Valle, uma das artistas participantes da exposição, e de Ovídio Gouveia da Cunha, que depois veio a ser Diretor do Liceu.


Folheto do Primeiro Salão Anual de Artes Plásticas e Aplicadas do Clube das Vitórias Régias (Acervo Maria Angela Amaral do Valle)
O maior nome da mostra é, inegavelmente, o da pintora Georgina de Albuquerque. A artista é autora da tela Sessão do Conselho de Estado (1922), em que retrata um momento de protagonismo feminino na História do Brasil: a reunião em que a Princesa Leopoldina, na condição de Regente, assume o governo do país e desempenha papel decisivo nas deliberações que conduziriam à Independência. Professora e, posteriormente, diretora da Escola Nacional de Belas Artes, ocupou posição de destaque no meio artístico e institucional de seu tempo.
Como pintora, atualizou a tradição acadêmica ao introduzir soluções plásticas mais modernas e novos enfoques na representação de temas históricos.

Sessão do Conselho de Estado (1922), de Georgina de Albuquerque. Coleção Museu Histórico Nacional (Reprodução/Wikimedia Commons)
Outros nomes revelam vínculos com círculos intelectuais influentes, como é o caso da declamadora e escultora Margarida Lopes de Almeida, filha da escritora Júlia Lopes de Almeida, uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras.
Júlia é um caso emblemático das barreiras enfrentadas pelas mulheres à época. Apesar de sua atuação destacada no meio intelectual do final do século XIX, foi impedida de integrar o quadro de fundadores da ABL quando ela foi criada, em 1897. Naquele momento, prevaleceu o entendimento de que a Academia seria composta exclusivamente por homens.
A cadeira que poderia ter sido ocupada por Júlia foi atribuída a seu marido, o poeta Filinto de Almeida. O episódio tornou-se um dos exemplos mais lembrados das limitações enfrentadas pelas mulheres no acesso às instituições culturais — situação que só se transformaria muitas décadas depois.

A declamadora e escultora Margarida Lopes de Almeida. Foi considerada a grande voz da arte da declamação no Brasil. Fato curioso é que suas mãos teriam servido de modelo para as da estátua do Cristo Redentor (Reprodução/Wikimedia Commons)
Outros nomes do Salão de 1938
Outras participantes do Salão de 1938, transcorrido no Liceu, compõem um universo mais amplo de mulheres que, embora menos conhecidas hoje, contribuíram ativamente para a vida cultural da cidade.
Entre elas estava a artista plástica e escritora Isolda Lino de Castro Norton, destacando a arte da encadernação. Ao lado da pintura e da escultura, o salão abriu espaço igualmente para as artes do livro e para outras expressões das chamadas "artes aplicadas", valorizando saberes que muitas vezes permaneciam à margem dos circuitos artísticos tradicionais.

Algumas canções medievais escolhidas de entre os vários cancioneiros (1935), escrito e ilustrado por Isolda Lino de Castro Norton (Reprodução/Livraria Sá da Costa)
Vínculos luso-brasileiros
Além da presença do Embaixador de Portugal — e do fato de o evento ter sido acolhido por uma instituição luso-brasileira, o Liceu Literário Português — destacam-se outros vínculos lusitanos pela participação de artistas portuguesas, como é o caso de Isolda e de Maria Margarida de Lima Soutello.
Esta última, pintora de origem açoriana, desenvolveu uma obra de forte acento humanista, marcada pelo interesse por figuras e objetos da vida cotidiana e pela presença recorrente de personagens negros em papéis bastante simbólicos — escolhas que conferiram à sua produção um caráter singular e disruptivo no panorama artístico de seu tempo.

O Anjo negro (1944), de Maria Margarida Soutello (Reprodução/Coleção Eduardo e Leonardo Mendes Cavalcanti)
O Clube foi acolhido pela diretoria do Liceu Literário Português, onde as Vitórias Régias realizaram outros tantos salões e programas de arte.

Em 1944, as Vitórias Régias organizaram outra mostra lítero-artística no Liceu Literário Português. Jornal A Noite Ilustrada, 14 mar. 1944 (Biblioteca Nacional)
A fundadora do Clube
Iveta Ribeiro, idealizadora e líder do Clube das Vitórias Régias, foi uma escritora, pintora, poetisa e radialista carioca nascida em 7 de março de 1886 e falecida em 1963 no Rio de Janeiro.
Diretora da revista Brasil Feminino, fundou aquela que é considerada uma das precursoras das modernas revistas femininas. Assim como o Clube das Vitórias Régias, o periódico buscava colaborar para a emancipação da mulher, favorecendo a inserção de artistas em um meio predominantemente masculino.
Vínculos com o Varguismo
A trajetória do Clube das Vitórias Régias também revela aproximações com o ambiente político. O grupo mantinha interlocução com o governo de Getúlio Vargas, e teve como presidente de honra Darcy Vargas, esposa do Presidente da República.
O fim do Estado Novo parece ter impactado fortemente o Clube, que ao final do ano de 1945 dissolve-se.
Feminismo moderado
A atuação do grupo aproxima-se do perfil de muitas associações femininas das primeiras décadas do século XX, formadas por mulheres da elite, cuja inserção no espaço público se dava sem romper abuptamente com os papéis sociais que lhes eram atribuídos na época.
Espaço de protagonismo feminino
Todavia, a atuação do Clube das Vitórias Régias ganha relevo quando lembramos que a Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897, manteve-se por décadas restrita a integrantes do sexo masculino — quadro que só se modificaria em 1977, com a eleição de Rachel de Queiroz.
Nesse contexto de exclusão, associações como essa cumpriram um papel estratégico: ao se concentrarem em ações sociais, culturais e artísticas, elas ofereciam às mulheres um espaço relevante de atuação pública, como um primeiro passo para formas mais amplas de participação.
Hoje, ao revisitar documentos como o folheto desse salão, é possível vislumbrar uma rede de sociabilidade feminina que, em diferentes campos — da pintura à música, da literatura às artes decorativas — contribuiu para enriquecer a vida cultural carioca. Recuperar essas histórias é também reconhecer o protagonismo feminino na construção de espaços de arte, cultura e sociabilidade.
Por Gabriel Ferraz Martins
Referências:
A MUSA portuguesa: as canções medievais ressurgem numa bela obra duma senhora. Diário de Lisboa (Suplemento literário), Lisboa, ano 15, n. 4522, 21 jun. 1935, p. 3. Disponível em: https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/DiariodeLisboa/1935/Junho/N4522/N4522_master/DiarioLisboaN4522.pdf.
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COELHO, Denise dos Santos. Maria Margarida Soutello: o inventário de uma artista na sombra da memória. Dissertação (Mestrado em Memória e Acervos) — Programa de Pós-Graduação em Memória e Acervos, Fundação Casa de Rui Barbosa, 2022. Disponível em: https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/bitstream/handle/20.500.11997/18114/Denise%20Coeolho.pdf.
CONVITE. Clube das Vitórias Régias — Primeiro Salão Anual de Artes Plásticas e Aplicadas — De 22 a 29 de setembro de 1938 no Salão Nobre do Liceu Literário Português — Rio de Janeiro. Acervo Maria Angela Amaral do Valle.
COSTA, Maria Ione Caser da. Brasil Feminino: de mulher – para a mulher – pela mulher. BN Digital, Rio de Janeiro, [s./d.]. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/dossies/periodicos-literatura/titulos-impressos-periodicos-literatura/brasil-feminino-de-mulher-para-a-mulher-pela-mulher/. Acesso em: 15 mar. 2026.
EXPOSIÇÃO de artes plásticas. A Noite, Rio de Janeiro, 29 set. 1938, p. 26. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=348970_03&pesq=%22Vit%C3%B3rias%20R%C3%A9gias%22%20%22Liceu%20Liter%C3%A1rio%20Portugu%C3%AAs%22&pagfis=57802.
EXPOSIÇÃO Vitórias-Régias. A Noite, Rio de Janeiro, 2 out. 1938, p. 10. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=348970_03&Pesq=%22Vit%c3%b3rias%20R%c3%a9gias%22%20%22Liceu%20Liter%c3%a1rio%20Portugu%c3%aas%22&id=317400641138&pagfis=57872.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. A roupa de Rachel: um estudo sem importância. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.
INAUGURA-SE hoje o V Salão de Pintura do Clube das Vitórias Régias. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 1 dez. 1943, p. 9. Disponível em: https://archive.org/details/1943-dezembro-19-domingo-diario-de-noticias/1943%20Dezembro%2001%20Quarta-feira%20Diario%20de%20Noticias/page/n7/mode/2up?q=%22Clube+das+Vit%C3%B3rias+regias%22.
NATAL do Retiro dos Artistas. A Noite, Rio de Janeiro, 26 dez. 1943. p. 17. Disponível em: https://archive.org/details/1946-dezembro-15-domingo-diario-de-noticias/1946%20Dezembro%2023%20Segunda-feira%20A%20Noite/page/n5/mode/2up?q=%22Clube+das+Vitorias+Regias%22.
O CLUBE das Vitórias Régias... A Noite Ilustrada, Rio de Janeiro, 14 mar. 1944, p. 36. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=120588&pesq=%22Clube%20das%20Vit%C3%B3rias%20R%C3%A9gias%22&pagfis=26344.
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